EU GOZEI A MINHA ADOLESCÊNCIA NAS CALDAS DA RAINHA NOS ANOS 70 E 80

MANIFESTO

Já estou um bocadinho farto de aderir a grupos que embora sejam identificadores da minha identidade cultural; caldense, do oeste, ex. aluno da escola a, b e c, etc. se revelam um verdadeiro melting pot cultural com milhares de aderentes de quem eu não faço a mínima ideia quem sejam!
Tenho a impressão que entro num enorme salão a abarrotar de gente estranha e de vez em quando vejo lá no fundo um braço a acenar e reconheço uma cara conhecida.
E o pior é que na maioria das vezes sinto que aquela não é a minha festa e que eu estou a fazer a mesma figura que faziam aqueles ‘’coroas’’ que frequentavam o Green Hill (só aqui, porque o Ferro Velho e a Azenha eram transversais em termos de idade!) nos meus tempos de adolescência e que eu achava completamente anacrónicos!
Assim decidi que todos os do meu tempo deveriam ter um espaço mais selectivo onde sentíssem que conhecem toda a gente da festa, mesmo que de vista. Já tenho umas sugestões para o nome do grupo mas quero que todos participem com sugestões. Eis algumas delas:

Associação dos reformados do Sotão dos Crespos

Liga dos antigos utentes das festas de sótão e garagens das Caldas como as garagens da Isabel Prego, da Nini Velhinho, da Nônô Nazaré da sala na Rua Direita de Óbidos e dos Sotãos dos Crespos, do Kiko, do Manel Vasconcelos e da Manjedoura (esta última com excelente organização da SAPEC-BX – Sociedade Anónima dos Polidores de Esquinas Caldenses – Bairro de Xangai)

Expatriados do Casino

Também eu jogava King fechado na barraca nos dias de chuva na praia da Foz

Namorei no Café Tabaco, no Solar da Paz e no Sitio da Várzea

Parque de Estacionamento do Green Hill e Miradouro elevados a Património Cultural do Oeste.

Também eu fazia a Princess, a Sunset, o Moinho, o Jeans Rouge, o Bonnie e o Green Hill numa noite!

Também eu apoiava o intercâmbio feminino Túnel-Green Hill

Também eu ia ao pão quente das Gaeiras, ao do Beco do Borralho e ao do Oasis.

Também eu era fã da Farrah Fawcett, deusa do Ferro Velho.

Clube de Fãs do Jorge e da Alice Sales, da Família Barreto e Sales Henriques (e dos colaboradores, Helder, Rui, Jorge e outros que a memória me atraiçoa) que nos ajudaram a passar a adolescência numa cidade de província de uma maneira que os lisboetas ainda hoje nos invejam!

Clube de Fãs dos porteiros Sr. Zé, Jorge e Sr. Beja que nos apoiavam nas boas e nas más horas (por falta de massa ou para encobrir retiradas estratégicas).

Fiz directas no Green Hill e no Dreamers e ia dormir de manhã para a praia.

Também eu me lembro da Queens, Feelings, Pink Panther, Cabana, Ponto e Virgula, da Viamar e da Aguarela.

Também eu enjoei a Cuba Libre e o Vodca Laranja.

Já eu frequentava as noites das Caldas antes do Fernando Costa cá viver (com o devido respeito Sr. Presidente)

Também eu me mascarava no Carnaval e fazia assaltos a casa de amigos e corria os bailes do Casino, da Colombófila, do Lisbonense, dos Pimpões e dos Bombeiros e ainda entrava no Corso!

Expatriados da Taiti, Zaira, Gato Preto e da Machado.

Também eu às escondidas atestava o Caipe de gin, vodka, whisky e tudo o que conseguia encontrar!

Também gostava muito das tardes de inverno no Parque nos furos das aulas do Liceu, eheheehe!

Comprei discos na Tália, rolos de fotografias no Turita, chocolates no Nutripol, jeans na Goya, pullovers no Monteiro e botas de cano alto e protectores de sola na Cova da Onça, sapatos na Gomes e na Macadi, livros escolares na Áurea. Comprei um relógio no Falcão, uma camisa na Pauísa e outra na Nobela e um rádio no Anselmo para acabar a comer um Rajá na esplanada do parque (e um Renny da Correia Mendes).

Também eu joguei matraquilhos na Floresta e na fábrica de bolos do beco das Teixeiras. Joguei bilhar no Marinto, no Central e na Maratona, joguei flippers no Camaroeiro e ping-pong na Casa dos Barcos e aluguei bicicletas no parque.

Tomei café no Lusitano, no Flor de Lis, na Invicta e no Convivio.

Fui às matinés do Salão Ibéria, sentei-me no piolho do Pinheiro Chagas e estreei o Estúdio 1.

Também eu estreei o ensino unificado e apanhei com aulas ao sábado à tarde!

Apanhei boleia na Rainha quando me faltava o dinheiro para o Claras.

Fumei Kart, Ritz, Provisórios e Definitivos, Nobel e 2002 Controle, Sintra e Kentucky, Kayak e 3 Vintes e apanhei com a greve da Tabaqueira de 82 e acabei a fumar Lider, Florida e Ducados.

Bebi gasosas e laranjadas, Rical e Frutol, Groselhas e Capilé, Carbo Cidral, Caprisonne, Vitasumo, Ginger Ale e Canadá Dry, Spur Cola e Laranjina C.

Também eu comprei uma bicicleta Vilar no Pinto e uma Ávila no Samagaio e mais tarde andei de Velosolex, de Maxi Puch, de Honda Mini Trail, de Casal Boss, de Casal Trial enquanto via as Forvel e Famel e ainda as V5 da Sachs.

Fui um dos sobreviventes da excursão de finalistas a Torremolinos de 1980.

Trabalhei na Feira da Fruta e na Feira da Cerâmica no Parque.

Também eu comia 'crises'' no Tric!

Também eu joguei ténis com os saudosos Prof. Barreto e Dr. Calheiro Viegas (entre outros da mesma geração).

Também eu poli a parede do edifico da Câmara ao lado da Zaira, nas longas noites de Verão.

Também eu me sentava no muro em frente ao café Caravela na Foz.

Também eu fugia ao beijo das ''Tias'' na Rua Direita de S. Martinho.

Também eu achava que o Túnel, o Al Kalil, a Gruta, o Ouriço, a Horta da Fonte, a Bambi, a Riamar, o Kyai, o Eurosol, o Infinitus, o Papagaio, o 22, o Pink Panther, o Numero Uno, o Pessidónio, o Scotch, o Seagull e o 2001, o Van Gogo, o Beat, o Charlie Brown, o Maria Bolachas, a Primorosa e o Ad Lib, o Stones, o Bananas e o Up and Down, o Afonso de Albuquerque, o Porão da Nau e o Archote, o Whispers, o Loucuras e o Stringfellows, o Jamaica e o Rock Rendez-Vous ERAM JÁ ALI e BORA LÁ TOMAR UM COPO!

Também eu me lembro do Luis Represas a tocar no Happening e o Fernando Pereira a cantar e a fazer imitações com os Tolans no Berro.

Também eu sobrevivi à curva da Fábrica do Sabão e ao Whisky do Green Hill.

Também eu adormeci nas missas do saudoso Padre Guerra (estamos solidários contigo Bento XVI, sabemos o que isso é!)

Também a minha mãe me proibia de passar o Je T’Aime Moi Non Plus nas Festas de Aniversário!

Sou do tempo em que aguardávamos ansiosamente pelo inico dos Slows. (Qual Ie-Ie! Venham os Slows!)

E finalmente, também eu acho que deveríamos criar – com a devida autorização dos familiares - um grupo de fans de todos os nossos amigos que já não podem partilhar connosco esta brincadeira saudável do facebook e de quem todos temos muitas saudades. Se eles pudessem iriam certamente aderir a qualquer um dos grupos atrás nomeados e sem eles as nossas memórias de adolescência não seriam as mesmas. Obrigado a todos vós e a todos eles por fazerem parte da minha vida.

Agora, não se esqueçam, este espaço é de todos nós que compartilhamos estas memórias, mantenham-no vivo com os vossos comentários, recordações, sugestões e fotos.

Convidem todos os vossos amigos que sabem querer partilhar deste espaço.

Podemos não nos conhecer pessoalmente mas todos reagimos emotivamente à lembrança desses momentos.

O espaço é público deliberadamente, não é o meu espaço, é o nosso espaço.


Paulo Caiado